:: ATIRADOR DE WASHINGTON
Washington em pânico...emissoras de tv 24 horas no ar...Profilers, criminalistas, detetives, policiais, militares, todos dando suas opiniões no caso do atirador que matava de longe, sem deixar pistas, sem seguir um padrão conhecido. Todos erraram em suas suspeitas: eram dois os assassinos, John Allen Williams/ Muhammad, 41 anos, e Lee Boyd Malvo, 17 anos. Ambos são negros, contra todas as probabilidades, segundo estatísticas anteriores. Trabalharam em dupla, fato que acontece só em 20% dos casos de assassinatos seriais, como se fossem uma só mente, com um só objetivo. Para complicar, todos os peritos achavam que, se a ação fosse de dupla, ela seria de adolescentes, uma vez que 32% dos casos de franco atiradores que agem desta maneira tem pouca idade. Segundo as previsões, se o assassino fosse adulto, ele estaria agindo sozinho. Errado: uniam-se aqui um ex-militar e um adolescente, brincando de pai e filho.
Cada palavra proferida pelo chefe de polícia Charles Moose era freneticamente preparada nos bastidores por especialistas em serial killers, negociadores de crise profissionais e estudiosos de comportamento criminoso. Se a linguagem fosse de desafio ou confronto, o atirador poderia matar novamente em resposta. Se o tom fosse muito conciliatório, o assassino poderia pensar que não estava sendo levado à sério, e o mal entendido causar consequências mortais.
Na trilha de sangue dos assassinos, 11 mortos, 3 feridos, milhares em pânico. Todos assistiam impotentes uma investigação que teria a sorte como aliada.
A midia teve importante papel nos planos do assassino. Ele parecia agir de acordo com o que ouvia sobre si mesmo. No programa do Larry King (CNN), o entrevistado Robert Ressler (ex-FBI) previu que o próximo assassinato seria mais ao sul, “talvez em Ashland”. Foi feito. O ex-agente do FBI Greg McCrary disse que este atirador parecia ter complexo de Deus...a carta de tarot deixada na cena de crime seguinte confirmava suas previsões. Bo Diete, ex-detetive de NY que inspirou série de televisão, chamou no ar o assassino de covarde...ele matou horas depois. O jornal Washington Post afirmou que este assassino não matava nos fins de semana...ele matou no sábado seguinte, como que para provar que estavam errados. E assim a discussão estava aberta: a mídia deve noticiar toda a investigação ou isso atrapalha e agrava a situação? Segundo a polícia, a ação da mídia deveria ser menor. Segundo a mídia, como instruir e alertar a população sobre medidas preventivas de segurança sem acompanhar o caso e ouvir especialistas? Temos sempre que levar em conta a relação custo/benefício, mas qual será a decisão mais acertada? Será que alguém tem a resposta previamente?
As Cartas
Os assassinos deixaram, nas proximidades dos locais em que mataram, três cartas:
07/outubro – Carta de Tarô que dizia “Caro policial, eu sou Deus”. Fontes da investigação revelaram que uma segunda mensagem na carta avisava para que a polícia não mostrasse ou falasse da carta para a imprensa.
19/outubro – Carta de 4 páginas embrulhada em plástico. Na primeira página, a frase “ Me chame de Deus – Para você, Senhor Policial”. Nas outras páginas:
- a ordem que nada fosse divulgado para a imprensa,
- o pedido de U$ 10 milhões de dólares a serem depositados em conta de cartão de crédito Visa roubado. Foram fornecidos os 16 números do cartão, além do nª PIN.
- criticava a incompetência da polícia e dos atendentes das “hotlines”, por acharem que suas ligações tratavam-se de trotes. O castigo: “Suas falhas custaram 5 vidas”.
- Ameaçava as crianças, dizendo “Suas crianças não estão seguras em lugar nenhum, em hora alguma”!
- a carta pedia que as autoridades contactassem o atirador por um certo número de telefone no domingo, às 6h00m da manhã. Foi esta ligação, de execução muito atrapalhada, que levou à prisão de dois imigrantes ilegais como suspeitos de serem os atiradores. Erro da polícia, pelo qual o chefe de polícia Charles Moose foi aos microfones acalmar o atirador
- A carta dizia que se os pedidos fossem atendidos, a polícia teria menos “sacos de cadáveres”; e se a prioridade fosse pegá-los, que preparassem mais “sacos de cadáveres”. Ainda estava escrito: “Damos nossa palavra que será assim. Word is bond” (frase de famoso reggae).
22/outubro – Mais uma carta do Atirador de Washinton, com nova ameaça as crianças. O assassino, frustrado por ainda não ter conseguido falar diretamente com as autoridades do caso, pedia que fosse instalada uma exclusiva linha 0800. Citava alguns nomes de atendentes incompetentes que não haviam acreditado nas suas ligações.
A Investigação e o Caso de Alabama
Em 21 de setembro de 2002, Kellie Adams foi ferida, e Claudine Parker morreu, ambas vítimas de tiro durante num assalto na loja de bebidas em que trabalhavam, na cidade de Montgomery, Alabama. Largado no chão do estacionamento da loja, uma revista sobre armas.Com técnica especial, foi identificadas uma digital na revista. O material foi enviado ao FBI. As testemunhas do crime citaram um Chevrolet Caprice azul, ano 1990, que passou por ali em velocidade, mas na época ninguém achou que o carro tinha alguma coisa a ver com os criminosos.
No dia 17 de outubro, o próprio atirador citou o crime de Montgomery, Alabama, para o atendente da “linha direta”, ao tentar persuadi-lo de que se tratava do verdadeiro atirador falando. No início, a polícia pensou que a referência era a um dos locias de Washington onde o atirador havia feito vítimas. Dias depois, o Reverendo William Sullivan, de Ashland, procurou a polícia. Havia recebido um estranho telefonema. O interlocutor havia começado a conversa dizendo que era Deus, se dizia o atirador de Washington e fazia referência a um crime ocorrido na cidade de Montgomery, Alabama, que deveria ser verificado pela polícia. A equipe de investigação percebeu seu engano, e contactou os policiais do outro estado. Foi a partir desta pista que, através da impressão digital, a polícia chegou no nome de Lee Boyd Malvo. Seguindo o rastro do menino, souberam que ele morava com John Allen Mohammed, ex- militar.
A Prisão
De repente, tudo parecia se encaixar: depois da morte de Pascal Charlot, a polícia procurava um Chevrolet Caprice azul, entre outros carros descritos como próximos ao local dos crimes. As investigações logo encontraram os registros de um carro deste modelo e ano, comprado por John Muhammad em sociedade com Nathaniel Osbourne, jamaicano e cantor de reggae. Agora investiga-se sua participação nos crimes do Alabama e Washington.
No dia 24 de outubro, um telefonema de um motorista de caminhão alertou a polícia que dois homens dormiam no interior de um Chevrolet Caprice azul ano 1990, numa área de descanso ao longo da estrada Interestadual 70, próximo a Myersville, Maryland. Ao verificar a placa, constataram ser o carro certo: licença de New Jersey e placa NDA 21Z, o carro de Muhammad e Ousborne.
Toda a polícia se mobilizou. Conseguiram mandatos federais de prisão para John Muhammad, por violação de armas, e Lee Malvo, como testemunha material, rumaram para o local e acordaram os dois homens levando-os para averiguações e perícia do carro.
Ao examinar o veículo, encontraram uma BUSHMASTER XM15 (calibre .223). É uma arma de alta potência e mortalmente precisa. O carro em si era modificado para funcionar como uma plataforma de tiro. Tinha dois buracos, um para o cano da arma e outro para um telescópio de mira, além de um tripé. Desta forma, atirando de dentro do carro, o atirador não seria visto pelos sensores de calor que rodeavam os céus de Washington, em avião especial. A forma de operar também proporcionava uma fuga muito rápida, sem que as pessoas em volta realmente percebessem o que estava acontecendo.
A arma apreendida foi examinada, e provou-se que dali saíram pelo menos 11 dos 14 tiros do Atirador de Washington. Finalmente a cidade podia dormir em paz.

John Allen Muhammad
John perdeu a mãe muito cedo. Ela morreu de câncer de mama. O menino foi criado pelo avô e pela tia, em Baton Rouge. Nunca conheceu seu pai.
Era excelente jogador de futebol americano nos tempos de colégio, em Baton Rouge, Louisiana. Também foi ali que começou a namorar Carol Kaglear, com quem se casaria em 1981. Fez parte da Guarda Nacional de Louisiana como carpinteiro, trabalhando no reparo de edifícios.
Amigos do casal relatam que John educava o filho único com discipliana militar, que segundo alguns parentes, chegava a ser cruel.
Em 1985, separou-se de Carol, converteu-se ao islamismo, deixou a Guarda Nacional e alistou-se no exército. Mudou-se para Fort News como uma pessoa totalmente diferente, como se tivesse se reinventado. Casou-se com Mildred Green, com quem já estava desde o fim de seu casamento, que também se tornou muçulmana.
Sua unidade de combate na Guerra do Golfo ajudou a destruir um galpão onde eram armazenadas armas químicas. Não existem evidências conclusivas de exposição a baixos níveis de agentes químicos, mas segundo o Pentágono, pode ter acontecido.
Foi como militar que ganhou intimidade com armas de fogo. No Exército Americano existem 3 categorias para atiradores. Mohammad alcançou a terceira categoria de tiro com M-16, o que significa o título de expert.
Deixou o Exército em 1994, indo trabalhar por um ano na Guarda Nacional do Oregon. Depois, tentou ganhar a vida como mecânico de carros e professor de karatê. Falhou nas duas tentativas.
Em 1999 separou-se da segunda esposa, Mildred, que seguiu o exemplo da primeira esposa de John, conseguindo uma ordem restritiva contra ele por tê-la intimidado físicamente e gravado seus telefonemas. Ela alegou que ficou com medo dele, da sua irracionalidade.
Dez dias depois, John raptou os três filhos e foi para Bellingham, onde começou outra vida. Seus filhos, dois de 8 anos e um de 10 anos, ganharam novos nomes e documentos falsos, e foram matriculados na escola local. Para os vizinhos e conhecidos, Muhammad falou que trabalhava na CIA, no FBI ou que era empresário internacional. Segundo seus amigos, seus filhos eram TUDO para ele!
Depois de algum tempo, John resolveu mudar-se com os filhos para Antiqua. Falsificou passaportes para todos e ganhou dinheiro fazendo o mesmo para terceiros , cobrando por seus serviços entre U$ 1000 e U$ 1500 dólares.
Em 2000, voltou para os EUA e trocou seu nome para Muhammad, alegando motivos religiosos. Mildred, com a ajuda da polícia, recuperou os filhos e a custódia, fazendo com que John Muhammad perdesse o direito de visita.
Para John, o episódio teve a força de um terremoto em sua vida. Segundo todos que o conhecem, é um homem desesperado e obssessivo por controle, além de agressivo com mulheres. Para continuar no “comando”, raptou os próprios filhos e ameaçou as ex-esposas de morte. Homem manipulador, ficou impotente com a decisão da justiça.
Sozinho, retornou para Antiqua, onde conheceu Lee Malvo. Foi provavelmente o crime que financiou as viagens da dupla.
Lee Boyd Malvo
A primeira dúvida que surge quanto a Malvo é sua idade. Nos documentos jamaicanos, consta que nasceu em Kingston, no dia 18 de fevereiro de 1985, 17anos, mas desconfia-se que ele pode ser maior de idade. Aos 13 anos, saiu de casa com a mãe para morar em outra ilha do Caribe. Segundo seu irmão, não era violento nem má pessoa.
Em 1998, Lee morava com a mãe na Flórida, como imigrantes ilegais. Em 2000, deixou-a para viver com Muhammad em Washington, em abrigos para sem-teto.
Na nova escola, Malvo mostrava saber todos os termos técnicos e estratégias relacionadas ao Vietnã. Dizia aos colegas de classe que seu “pai” havia lutado na Guerra do Golfo. Era estudante brilhante e aplicado. Seus ex-colegas declararam que ele era estudioso, bem vestido, mas não fazia amizade com ninguém.
Em dezembro de 2001, a mãe de Malvo pediu a ajuda da polícia para resgatá-lo. Não conseguiu.
A Dupla
A dupla se conheceu no pior momento da vida de John Muhammad, quando ele perdeu definitivamente os filhos para Mildred e ela sumiu com eles.
Em Bellingham, Washington, durante as semanas dos crimes, os dois costumavam sentar-se no Stuart Coffe House, para tomar café e jogar xadrez. Não bebiam nada alcoólico, e Muhammad sempre ganhava o jogo. O rapaz era exageradamente respeitoso com Muhammad, pedindo permissão para falar e chamando o amigo de Senhor.
Por todo os lugares onde passaram, as pessoas presumiram que se tratava de pai e filho.
As Acusações
Existem evidências de que o adolescente Lee Boyd Malvo foi o atirador em pelo menos um caso, dia 14/10, quando Linda Franklin foi assassinada. Na maioria das mortes, a responsabilidade de puxar o gatilho recai sobre John Allen Mohammad.
Suspeita-se que a dupla esteja envolvida em vários crimes e esquemas de fraude de documentos em Antiqua, Alabama, Indiana, Maryland, Columbia e Washington.
A briga que a promotoria trava agora é se os dois criminosos serão processados no estado de VIRGINIA ou MARYLAND. A pena de morte foi retomada nos EUA em 1976, e desde então apenas 3 criminosos foram executados em Maryland, contra 86 execuções em Virginia.
A dupla também pode ser acusada pelo assassinato de Keenya Cook, 21 anos, morta em fevereiro/2002 com um único tiro. Keenya foi atingida assim que saiu pela porta da frente de sua casa, em Tacoma, mesma cidade em que morava a dupla de assassinos. Eles eram amigáveis com a família da moça, e existe até uma fotografia de Malvo e Muhammad no sofá da casa dos Cook. A amizade terminou quando a família Cook e a ex-mulher de Muhammad ficaram amigos.
Mais uma vítima foi relacionada à dupla: Hong Im Ballenger, moradora de Baton Rouge. Ela teve sua bolsa roubada e foi morta quando entrava em seu carro, com uma arma do mesmo calibre daquela utilizada pelos atiradores de Washington.
Outra possível vítima é Bernita White, de Michigan, que foi morta na entrada de um zoológico em junho/2001, com um único tiro dado à distância. Não há evidências de que Muhammad e Malvo estiveram em Michigan, mas seu sócio no carro, Nathaniel Ousborne, foi preso ali.
Uma sinagoga em Tacoma, onde tiros foram disparados em maio de 2002, também pode fazer parte do roteiro da dupla criminosa. Ali, ninguém ficou ferido.
Na última semana, ao ser deixado sozinho, na sala de interrogatório, Lee Malvo tentou escapar pela tubulação de ventilação. Foi impedido.

Os Motivos
O jornal Los Angeles Times listou 6 motivos que teriam levado Muhammad ao seu reinado de sangue:
1. A relação tempestuosa que tinha com sua família,
2. Sua profunda realização de perda e arrependimento,
3. Sua percepção da sensação de abuso como um americano muçulmano depois de 11 de setembro,
4. Seu desejo de controle sobre os outros,
5. Seu relacionamento com Malvo,
6. Sua tentatia de fazer dinheiro rápido.
Aumentam as especulações de que Muhammad começou esta trilha de mortes porque planejava assassinar sua ex-esposa, Mildred, e desta forma pareceria que ela fora vítima de um assassino louco. Por enquanto, ficam descartados motivos ideológicos ou políticos.
Outros tiros/crimes associados ao Atirador de Washington até 7/11
- 16 de Fevereiro: Keenya Cook, 21, assassinada ao abrir a porta de casa em Tacoma,Wash.
- 1 a 4 de maio: Tiros contra a sinagoga Templo Bethel em Tacoma. Ninguém ferido.
- 14 de setembro: Rupinder Oberoi, 22, ferido numa loja de bebidas em Silver Spring, Md.
- 21 de setembro: Million Woldemarian, 41, assassinado do lado de fora de uma loja de bebidas em Atlanta, onde trabalhava.
- 21 de setembro: Claudine Parker, 52, assassinada do lado de fora de uma loja de bebidas em Montgomery,Ala. Outra funcionária, Kellie Adams, 24, foi ferida.
- 23 de setembro: Hong Im Ballenger, 45, vendedora de produtos de beleza assassinada durante um assalto em Baton Rouge, La.
Como os Atiradores agiam:
Desenho Washington Post

Bala calibre .223

Arma utilizada
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