:: SOB SUSPEITA

Algumas estão no auge, outras tornaram-se clássicas. A proliferação das séries de investigação criminal consagra uma fórmula que prende, minuto a minuto, uma audiência fiel, principalmente a dos adolescentes e jovens. E será que os pais têm motivos para se preocupar?

(Revista Metrópolis – Ano III – Junho de 2007)
por VAGNER AMBROSIO


Catherine Willows entra num apartamento de Las Vegas, acompanhada por Warrick Brown, seu colega na equipe de perícia da cidade. Não há luz. Com uma lanterna, luvas de borracha e uma pinça, a perita de C.S.I recolhe um tufo de pêlos do carpete, coloca-o em um pequeno saco plástico e o fecha. Ali, pode estar uma pista relevante. Do outro lado da cidade, na sede do departamento, o legista Dr. Robbins examina um corpo de mulher sobre a maca. Ao seu lado está Gil Grissom, o chefe da equipe. Entre uma explicação e outra do legista sobre as causas da morte, uma câmera viaja veloz por vasos sangüíneos até as entranhas do pulmão da vítima, ilustrando os comentários do especialista. É uma viagem ao interior do corpo humano, às vezes chocante, às vezes bizarra e até didática. Por meio da dedução, de depoimentos e, principalmente, da aplicação dos recursos mais modernos da ciência e da tecnologia, os peritos vão afunilando as investigações até chegarem ao culpado. A narrativa é relativamente lenta, a lista de suspeitos é grande, alguns deles são descartados porque têm um bom álibi, mas, quase sempre, apresentam novas pistas para a equipe de investigação sobre quem poderia estar por trás do crime. Com esta fórmula básica bem-sucedida, C.S.I (Crime Scene Investigation) vem se mantendo no ar há quase uma década e gerou ainda dois filhotes: C.S.I Miami e C.S.I Nova York. Trazendo algumas particularidades no formato, nos métodos de investigação e na utilização de efeitos especiais, muitas outras séries estão no ar tendo como pano de fundo o mundo da investigação criminal e a resolução dos mais misteriosos crimes: Cold Case, Criminal Minds, Law & Order, Medium – esta utiliza as habilidades de uma vidente para impedir ou desvendar crimes – Without a Trace, e por aí vai. Tal proliferação se justifica pela audiência. Pelo menos seis séries criminais estão na lista dos 20 programas mais vistos nos Estados Unidos.

O sucesso das séries de investigação criminal criou novas estrelas da telinha, que hoje estão entre as mais bem pagas do mundo dos espetáculos, nos Estados Unidos. Uma dessas estrelas é William Petersen, ou o Gil Grissom de C.S.I Las Vegas – um cara introspectivo, meio nerd, incorruptível e implacável com os maus. Para cada episódio gravado, Petersen recebe 500 mil dólares, cerca de 1 milhão de reais. Pode-se dizer que as séries criminais, com seus investigadores obcecados, substituíram com êxito as comedinhas da década de 1990. Cifras à parte e quase independentemente de quem é o ator principal, é no roteiro que está a força desses seriados cheios de novos Sherlock Holmes. Mas, diferentemente do pitoresco detetive inglês ou do detetive Poirot, dos suspenses de Agatha Christie, que utilizam quase exclusivamente o processo dedutivo para colocar os assassinos atrás das grades, a nova turma da tevê tem toda a ciência e tecnologia moderna a seu favor, como teste de DNA, supercomputadores, sofisticadíssimos exames laboratoriais e clínicos, além de reconstituições gráficas.

“É um constante desafio mental, por meio da ciência, da informática, de recursos da atualidade, que vão se somando durante uma investigação. E isso instiga o público”.

Em questão de segundos, a ficha de alguém é levantada por meio de uma eficiente rede de informações entre diversos departamentos policiais. O passo a passo da investigação, a alternância de suspeitos a cada prova recolhida e o drama dos envolvidos, que provoca um turbilhão de emoções, não deixam a audiência fugir até o último minuto, quando o caso é solucionado. Boa parte dos episódios desses seriados é baseada em casos reais. Em alguns capítulos de Law & Order, por exemplo, ao final, há uma legenda informando a data em que ocorreu o caso e o que aconteceu com os envolvidos. A proliferação desse tipo de programa se deve, de certo modo, à identificação que a audiência tem com aquelas pessoas que fazem algo contra a violência, seja a polícia ou o ministério público. É uma perseguição sem fim contra o crime. Mas por que os seriados de investigação criminal atraem tanto adolescentes e jovens? “Gosto de acompanhar o raciocínio deles para chegar até o assassino”, aponta a estudante Carolina F. Almeida, de 15 anos, residente em Alphaville. A resposta da estudante resume o motivo principal que faz a garotada do mundo todo acompanhar os seriados. Fã de carteirinha de quase todas as séries desse segmento que estão sendo exibidas na telinha, a escritora Ilana Casoy, autora do livro Serial Killer – louco ou cruel? também vê motivos de sobra para a fórmula fisgar o telespectador. “É um constante desafio mental, por meio da ciência, da informática, de recursos da atualidade, que vão se somando durante uma investigação. E isso instiga o público, principalmente os mais jovens. Hoje, um interrogatório violento é um interrogatório burro, há outras técnicas”, diz a escritora, formada em administração de empresas, que há sete anos dedica-se à pesquisa sobre serial killers. Ilana também tem entre seus leitores uma boa parcela de jovens. “Muitos me escrevem dizendo que o pai não permite que leiam o meu livro. Digo para convencerem os pais a lerem primeiro. A proibição tem prazo de validade. E, pior, quando o jovem lê escondido, ele o faz sem orientação. Não tem com quem tirar suas dúvidas, por isso, é fundamental que os pais tomem conhecimento do assunto e conversem sobre ele com os filhos”, aconselha a escritora.

Justamente para acompanhar os adolescentes, muitos pais apreensivos, mesmo a contragosto, tiveram de mudar de canal e também grudar os olhos nessas séries. Alguns ficam arrepiados com a realidade das cenas, com o tom pessimista do conteúdo e, claro, a violência. Para esses pais, a psicóloga Rosely Sayão, experiente nos assuntos que envolvem os relacionamentos familiares, diz que pode haver um exagero de preocupação. “Os jovens sabem que essa violência não os atinge que podem fechar os olhos a qualquer momento, quando uma cena for muito forte. Quanto à violência da realidade, essa é impossível deixar de ver”, explica Rosely. Para a psicóloga, considerar que a ficção tem enorme influência sobre adolescentes e jovens é diminuir a responsabilidade dos adultos próximos a eles. De acordo com ela, hoje há pesquisas que apontam que a maior influência vem dos grupos de amigos, dos pais e professores. “O silêncio da família e das escolas tem muito mais influência na conduta dos jovens do que o barulho feito por séries de tevê e filmes”, conclui Rosely, reforçando a tese de que a supervisão dos pais e a conversa, mesmo sobre assuntos espinhosos, é a melhor saída sempre.

Outra influência

Nos Estados Unidos, as séries da tevê vêm provocando uma mudança de comportamento que vai dos métodos de investigação até as exigências da justiça no julgamento de um réu. O depoimento de uma testemunha ocular pode ter menor peso do que um exame de DNA, ou nenhum valor se não for confirmado por meio de uma prova científica. As autoridades americanas já vêm se deparando com um outro problema: condenados que estão na prisão há décadas têm pedido reabertura de seus processos, exigindo exames de DNA. A estudiosa Ilana Casoy devolve com uma pergunta para os que argumentam sobre a influência das séries sobre os jurados. “Se você é jurado e precisa decidir a vida de uma pessoa, você não quer ter provas? A prova científica te dá uma certeza”, diz ela. “Antigamente, e ainda hoje, no Brasil, em muitos casos o julgamento vira um teatro. O promotor apresenta sua versão, o advogado de defesa apresenta a versão dele, e o júri vota na versão que acreditou.” A influência das séries no Brasil ainda é pequena, justamente porque a grande maioria delas é exibida em canais por assinatura, e há uma boa distância entre os laboratórios criminais da tevê, com técnicos altamente treinados, e os do mundo real. Não é sem motivo que os departamentos americanos de polícia estão muito mais preocupados atualmente com a estratégia de investigação, de interrogatório e acusação. Por outro lado, os criminosos também têm nas séries um vasto material didático de como esconder e apagar provas. “Qualquer conhecimento, até o bíblico, serve para o bem ou para o mal. Muitos assassinos dizem que utilizaram a Bíblia como motivação para seus crimes. Então, vamos proibir a veiculação da Bíblia?”, pergunta a escritora Ilana Casoy. De fato, se por um lado as séries podem ensinar os criminosos a esconder provas, por outro, ensinam os policiais a procurá-las.