:: MAIS UMA MARIA

1984. Sol escaldante na cabeça, Maria Conceição, nome de santa e destino “dos diabos”, sai pelas ruas secas da cidade de Belmiro Gouveia, divisa entre Bahia e Alagoas, sem destino certo. A fome já não a deixava raciocinar. Pela mão levava seus cinco filhos, na barriga mais um por nascer.

A vida não sorriu para esta Maria. O marido a deixou pela melhor amiga e fugiram para São Paulo, levando no bolso toda documentação dos filhos. Eram agora crianças sem nome nem sobrenome.

Todos choravam sem parar a dias, de dor “de fome”. Maria, impotente, não sabia mais o que fazer. Lembrou do Padre, sempre com discursos tão caridosos, e levou seus filhos para entregar para a Igreja. Era melhor dá-los a Deus do que deixá-los morrer assim. Engano de Maria; o padre respondeu que este não era um assunto da igreja, que nada podia fazer.

Maria Conceição seguiu seu caminho, tentando entregar seus filhos para as autoridades...mas sem registro, a “burrocracia” nada podia fazer. No mais completo estado de pobreza, Maria Conceição e suas cinco crianças caminharam, em silêncio, por cerca de 60 Km, até a Usina Paulo Afonso IV. Ninguém sabe quanto tempo levou. Parou na beira do lago, ouvindo o “grito de fome dos filhos”, segundo o relato do processo, e quase riu do contra-senso de ver tanta água em meio a uma das mais graves secas que o nordeste já enfrentou. E assim, meio sem jeito, sem raiva nem rancor, sem desespero nem amor, jogou um por um de seus filhos misericordiosamente para a morte nas águas do São Francisco. E miserável assim seguiu andando, seca de lágrimas, não sabia para onde, apenas seguiu. Foi encontrada desmaiada dois ou três dias depois, a 40 km do “local do crime”. Seguiu algemada para a delegacia, acusada de três homicídios e duas tentativas. Surpresos? Sim, Deus finalmente fez sentir a sua força e como que por milagre os dois filhos menores de Maria, um e três anos, ficaram por toda a noite presos nas pedras à beira d’água. Pescadores do local os encontraram ao amanhecer e um deles foi entregue para uma família alagoana que o adotou e criou. Hoje é médico formado. Ao tentar matá-lo, Maria salvou-lhe a vida.

Do outro ninguém tem notícias. E o que aconteceu com a criança que estava ainda na barriga de Maria? Ela não lembra; ninguém sabe informar.

Em 2004, dois caridosos advogados de Salvador, trabalhando na Vara Criminal de Paulo Afonso, perguntaram ao escrivão Roberto se podiam ajudar ‘pró-bono’ em algum caso de réu pobre. Roberto, num misto de espanto, alívio e alegria, respondeu que foi Deus quem os mandou ali. Conhecia uma senhora, Maria Conceição, presa na delegacia da cidade, sem um tostão, família ou advogado, que aguardava sentada por seu destino há 20 anos.

No ano de 2005, depois de 21 anos em prisão preventiva, Maria Conceição foi julgada por seus crimes. Inúmeros juízes e promotores passaram por aquela comarca sem nada fazer por aquela maria.

Já severamente comprometida mentalmente, provavelmente pela ausência completa e absoluta de alimentação e nutrientes pela qual passou, ou pelos maus tratos de anos abandonada ali naquela cela esquecida de todos, Maria Conceição ganhou voz pela primeira vez na vida. Seus advogados foram a júri pedindo sua condenação como semi-imputável por transtorno nutricional, condição rara, mais conhecida em Biafra do que na Bahia. Seus neuro-transmissores ficaram prejudicados pela falta de tiamina, causada por extrema miséria e inanição.

Os jurados aceitaram a tese da defesa e Maria saiu livre. Condenada a dez anos de prisão, já tinha cumprido vinte e um. Os mesmos advogados tentaram encaminhá-la para um asilo, que não a aceitou. Maria Conceição acabou sendo resgatada por um familiar que até hoje a abriga, apesar de sua grave limitação mental.

Segundo testemunhas, o tal padre até hoje se penitencia em sermões de “mea culpa” que faz pelos sertões da Bahia. Os juízes e promotores que por Maria passaram, nada declararam.

Eu me declaro: a história de Maria fala por si só. Que todos saibam o que pode acontecer a uma Maria num país com leis.