:: ENTREVISTA:
"Fiquei cara a cara com dois serial killers"
Sobrinha
de Bóris Casoy lança primeiro livro sobre os assassinos
brasileiros em série e conta a sensação de entrevistar
olhos nos olhos os criminosos
O primeiro livro sobre serial killers brasileiros será lançado
em abril, na Bienal. Após cinco anos de pesquisas, mais de 40 casos
levantados, visitas a manicômios, julgamentos e museus de crime,
Ilana Casoy, 44 anos, juntou seis deles em Serial Killers Made in Brasil
e já prepara um segundo volume com outros casos. Mais: depois
de um primeiro livro, Serial Killer Louco ou Cruel, em que conta
a história dos mais famosos assassinos internacionais, ela entrevistou
dois assassinos em série brasileiros. Sobrinha de Bóris
Casoy e formada em administração de empresas, ela diz que
a mente humana a intriga e por isso se interessou por serial killers.
Seu site www.serialkiller.com.br recebe 8 mil visitas por mês. Mãe
de Marcelo, 18, e Fernando, 22, Ilana passou o aniversário de 50
anos do marido Jacques escrevendo o livro na piscina do Copacabana Palace,
enquanto o mundo nadava, falava
inglês e pedia caipirinha ao seu lado.
Entrevistar um serial killer era uma meta desde o começo das pesquisas?
Achava desnecessário. Na verdade, tinha medo. Mas justificava com
argumentos racionais uma dificuldade emocional: dizia que, para contar
os casos, não precisava entrevistar os criminosos, porque eles
eram mentirosos patológicos e para obter os dados bastavam os processos.
Chegou uma hora que era imprescindível entrevistá-los e
fiquei cara a cara com dois serial killers.
O Monstro do Morumbi, cuja história você conta no livro,
é um serial killer que está solto desde 2001. Pensou em
entrevistá-lo?
Ele ficou trinta anos preso, matou 24 mulheres, em tese, entre São
Paulo e Belém (PA). Ele foi um menino mal tratado. Com 6 anos banhava
o pai, que tinha lepra. Aí, entende-se o fato de ele ser necrófilo.
Sua mãe era prostituta. Psicologicamente o que poderia acontecer
com ele? O Monstro do Morumbi fala que, para ter prazer nas relações,
a mulher tinha de permanecer imóvel, como se estivesse morta.
Sabia tudo, morri de vontade, mas não quis entrevistá-lo.
Ele está solto! Vou convidá-lo para um café? O Monstro
do Morumbi foi condenado a muito mais anos, cumpriu 30 e foi solto. Espero
que seja o primeiro serial killer a não matar de novo. Um agente
do FBI escreveu que em certas entrevistas com serial killers o papo foi
de extremo prazer e que um dos motivos de ter sido ótimo foi tê-los
entrevistado dentro da cadeia. Tô com ele.
Como Chico Picadinho se revelou na entrevista com você?
A imagem que tinha era de um animal que picou duas mulheres. Estava bastante
tensa, pensei em sair correndo. O Francisco é muito forte, fisicamente
e de personalidade. Primeiro, ele me pergunta quanto iria ganhar para
dar a entrevista: A senhora não vai lucrar? Eu quero dividir.
Sabia que o Francisco pintava quadros, falei que me interessaria por um
desenho e do apelo científico do livro e ele topou.
Comprou o quadro?
Vi um que era enorme, mas quero um menor. Ele pinta Chagall, Matisse,
Monet. Ele só quer conversar sobre cultura, sobre Nietszche. No
começo da entrevista, me disse que leu Crime e Castigo. Pensei:
Esse cara não leu nada. Perguntei o que ele havia achado.
E ele falou: Dostoievski é Dostoievski. Por exemplo, o Raskolnikov,
o Rodia, que drama o dele. Sabe a Sônia, a prostituta? Ela tinha
uma alma pura. Ele me deu detalhes que eram difíceis de saber
lendo a orelha do livro. Daí, ele me fala: A busca do sentido
da vida, conforme (Viktor) Frankel. Eu olhei para o lado e o Francisco:
A senhora não conhece Frankel? Terceira escola de psicologia
de Viena! E a filosofia de (Jiddu) Krishnamurti (educador hindu)?.
Ele cita Hermann Hesse (escritor alemão), fala dos preceitos da
yoga, pratica. Ele termina a entrevista com a frase ninguém
é só bom ou mau, do Sartre! Se eu pusesse um terno
no Francisco e o convidasse para um jantar em casa, todos conversariam
com ele e sequer desconfiariam. E essa é a armadilha dele, falar
de cultura e não dos crimes.
E o que conseguiu tirar de interessante sobre os crimes de Chico Picadinho?
Ele disse que leu Crime e Castigo meses antes do primeiro crime. No livro,
Raskolnikov justifica o crime que cometeu com a teoria de que, se Napoleão
pode matar, por que ele não poderia? Francisco diz que não
se inspirou, mas se enrola. Ele vai ao encontro dessa leitura, porque
é uma sensação, são desejos, que ele já
tinha. Ele sabia que mantinha sexo violento e percebeu a escalada de violência
na vida sexual. Entre o primeiro e o segundo crime que cometeu, ele tentou
estrangular várias mulheres. Ele falou entre seis e oito. Eu só
sabia de uma. Francisco se arrepende dos crimes, mas em nenhum momento
fala: Coitada da vítima, ela não tem nada a ver com
isso. Ele acha que as vítimas, de certa forma, queriam morrer.
Não tive medo dele. Ele é extremamente culto, sedutor, inteligente.
Me pedia licença para fumar, para levantar. Mas ele gesticulava
muito e olhar para as mãos dele e ouvi-lo falar voei no pescoço
dela é barra. O cara matou com as mãos! O Francisco
queria meu endereço! Disse: Escrevendo, posso contar muito
mais, fico menos constrangido. Eu me embananei e ele percebeu.
Marcelo Costa de Andrade, o Vampiro de Niterói, foi absolvido
dos crimes?
Foi considerado inimputável, porque é louco, e internado
num manicômio. Lá, são feitas avaliações
periódicas, mas esse tipo de louco não melhora. É
uma forma de condenar o assassino à prisão perpétua.
Fui acompanhada de um psiquiatra e dois psicólogos forenses do
Hospital das Clínicas. Não tinha medo, sentia um desconforto
por estar com um assassino que matou 13 meninos. Esses profissionais,
que há 20 anos trabalham com isso, passaram mal. Teve um que vomitou,
depois de ouvir os relatos do Marcelo.
E você?
Fiquei 4 dias de cama, desesperada ao pensar nas mães. As crianças
passavam noites com o Marcelo, antes de morrer. Antes de relatar os crimes,
Marcelo me pedia uma bermuda e uma camiseta. Prometi que daria as roupas
a ele. Quando Marcelo falou dos crimes, contou que enforcava as crianças
com uma camiseta, levava a bermuda delas como troféu e vestia a
camiseta nelas de volta. Tenho remorso de não ter mandado as roupas
a ele, mas não consigo ir numa loja escolher a bermuda, que não
pode ser preta, porque sei que ele não gosta!
De que vale contar os detalhes de todos os crimes?
No livro, antes do começo da transcrição da entrevista,
recomendo aos mais sensíveis a parar por ali. Para um leigo, é
importante saber o que existe por trás de um crime: a pessoa, a
infância terrível, sofrida.
Mas a grande maioria dos que têm infância sofrida não
vira serial killer?
A Febem é cheia de jovens que delinqüiram pela primeira vez.
Será que não mereciam uma avaliação mais acurada
para que se perceba os mais violentos, os que têm um conjunto de
características que irão levá-los a ser criminosos
violentos, e dar-lhes um tratamento diferenciado? Como prender um cara
antes de matar 13? Como intervir na infância, para resgatar o jovem
do futuro macabro? Quando conto a infância do assassino, estou dizendo:
Assistentes sociais, atenção!. O Marcelo passou
várias vezes pela Febem, antes de matar, e ninguém viu no
que ele podia se transformar. Precisamos repensar como intervir nesses
casos de crimes patológicos.
Já foi ameaçada?
Em janeiro, pela primeira vez recebi uma ameaça de morte. Um e-mail,
cujo remetente é eu@temato.com. O cara escreveu: Olá!
Você não está me refugiando. Agora, eu sei onde você
mora, onde trabalha, eu sei. Até a morte, Rapunzel. Eu estava
com cabelo comprido. A polícia o rastreou, já sabe que é
um usuário do UOL e está pedindo a quebra de sigilo do e-mail.
Não mudei os hábitos, porque minha vida é sentar
e escrever. Tem gente que me escreve: Por favor, me ajude a não
acontecer mais um massacre como diz em seu site. Ou: Tenho
19 anos, estou há 3 anos longe da sociedade... não agüento
mais... sinto que vou começar a matar pessoas um dia. Encaminho
para psiquiatras forenses, mas alguns assassinos em potencial se recusam
a serem tratados.
Por Rodrigo Cardoso - ISTOÉ GENTE
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