:: FATOR DE RISCO
No mundo inteiro, as pesquisas sobre a infância e a criminalidade se multiplicam. Psiquiatras, psicólogos e profissionais da área forense e de saúde tentam entender a mente criminosa e os fatores de risco na vida da criança que elevam a violência na idade adulta. Métodos de intervenção precoce a serem aplicados em menores infratores são amplamente estudados, discutidos e experimentados. São levantadas causas biológicas, sociais e psicológicas para a criminalidade, aprimorando o diagnóstico, ainda na infância, de sinais que indiquem tratamento para aqueles que o apresentam.
Numa época onde a violência é discutida dia-a-dia em todos os meios científicos, sociais e comunicadores, parece incrível que o Brasil não tenha ainda levantamento de quantos jovens que passaram internados em instituições como a Fundação Casa (Febem) e foram libertados por alcançar a maioridade, acabaram retornando à vida criminosa, muitas vezes de forma mais violenta, passando então a freqüentar as celas de nosso sistema prisional. Poderíamos ter visto os sinais que prenunciariam este futuro terrível ainda numa idade em que o jovem poderia receber tratamento? Estes “sinalizadores de comportamento criminoso” estariam relacionados a uma maior ou menor intensidade da vida criminosa adulta? Quantas vítimas poderiam ter sido evitadas com a identificação e tratamento de adolescentes com comportamento anti-social, hiperatividade e depressão? Quantos adolescentes, ainda em idade de transformação e desenvolvimento, poderiam ter sido devolvidos às ruas em melhores condições de adaptação social?
Quem não se lembra do menino Batoré? Nascido em 1983, em bairro pobre da zona leste de SP, foi acusado de assassinar 15 pessoas e de ter participado de mais de 50 seqüestros-relâmpago ainda menor de idade.
Ao examinarmos, mesmo que superficialmente, a infância de Fábio Paulino, apelidado Batoré por ser baixinho, reforçado e atarracado, logo percebemos que seus problemas se iniciaram na mais tenra idade e que seriam prenúncio de “desastre” em qualquer língua. Aos dois anos, perdeu o pai, assassinado de forma violenta. Neste mesmo dia sua mãe iniciou uma longa dependência pelo álcool. Aos nove anos de idade já estava envolvido com os “malandros” da região, sendo iniciado no tráfico de drogas antes mesmo de completar dez anos. Nesta época, parou de freqüentar a escola.
Aos treze anos Batoré cometeu seu primeiro homicídio conhecido, assassinando um investigador de polícia. Aliás, exterminar autoridades policiais parecia ser motivo de orgulho para o rapaz. Outras 14 pessoas, entre eles um delegado e um policial militar, morreram nas mãos de Fábio Paulino. Ele hoje cumpre pena por vários delitos, agora como adulto: tráfico de entorpecentes, formação de quadrilha, associação ao tráfico, porte de arma, falsidade ideológica e corrupção de menores. Está preso desde 2003.
Existiam, no prontuário de Batoré, indicadores comportamentais em sua primeira internação que poderiam esboçar esta carreira sanguinária? Foi abusado sexualmente, por negligência ou verbalmente? Que fatores psicossociais já sinalizavam a escalada de violência pela qual Batoré trilharia seu caminho?
Assim como Fábio Paulino, uma enorme quantidade de jovens infratores teve o mesmo destino, sem que soubéssemos quando, onde e de que forma poderíamos intervir no processo.
A população e a mídia não param de cobrar, às vezes de forma até leviana e demagógica, soluções rápidas para o problema do menor infrator e o alto índice de criminalidade existente nos dias de hoje. Não podemos esquecer que toda solução, de curto, médio ou longo prazo, dependerá de estudos preliminares que determinem quais são os problemas-base, em que população ele se destaca e quais as soluções possíveis.
Todo trabalho de prevenção ou diminuição de criminalidade se inicia com pesquisas relacionadas à infância e família, berço da violência e crime. Pesquisas que retratem nossa realidade levam a uma busca de soluções científicas e não mais tentativas infrutíferas que confundem e atrasam a tomada de medidas adequadas e eficientes.
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