:: ENTREVISTA: "O Chagas agia sozinho"

Ilana Casoy, especialista em serial killers, avalia o laudo psicológico do mecânico que diz ter matado e castrado 41 meninos

Há três semanas, o núcleo forense do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo encaminhou à Justiça o laudo de avaliação do mecânico Francisco das Chagas, que afirma ter matado e castrado 41 meninos no Pará e no Maranhão. Coordenado por Maria Adelaide Freitas Caires e Antonio de Pádua Serafim, o trabalho concluiu que Chagas, até certo ponto, tinha consciência dos seus atos. A conclusão abre a possibilidade de o mecânico ser julgado como criminoso comum e passar, no máximo, 30 anos na prisão. Autora de vários livros sobre assassinos em série e uma das primeiras especialistas a apontar as possíveis correlações entre os crimes de Altamira e São Luís, Ilana Casoy elogia o laudo ("está perfeito"), mas faz um alerta: "Se ele for considerado semi-imputável, pode passar poucos anos na cadeia. E um serial killer só não age se estiver preso ou morto". Coordenadora do grupo de estudos de crimes especiais do mesmo núcleo forense, Ilana descreve o perfil psicológico de Francisco das Chagas e diz acreditar que o matador agia sozinho.


CartaCapital: Há quem ache que o Francisco das Chagas é mitômano e que teria assumido crimes não cometidos por ele. É possível?
Ilana Casoy: Parece-me improvável o Chagas assumir qualquer crime não cometido por ele. Os serial killers têm uma característica: para eles, os rituais no momento dos crimes são como obras de arte que levam a sua assinatura. Quando estive no Maranhão, um outro preso pediu ao Chagas que assumisse o assassinato de uma criança que ele havia matado. O Chagas ficou muito indignado. E disse: "Eu não mato desse jeito. Não vou assumir nunca o seu crime. Você paga o seu e eu pago os meus". Ele se orgulha dos próprios crimes. E digo mais: ele não tem nenhum vínculo com os acusados dos crimes no Pará.

CC: Por quê?
IC: É quase impossível existirem duas pessoas em dois locais, ao mesmo tempo, exercendo a mesma fantasia. O ritual que o serial killer utiliza é enraizado em fantasias de infância. Ninguém tem a mesma infância. Nem dois irmãos numa mesma família têm as mesmas fantasias. É muito difícil existir um assassino no Maranhão e outro - ou outros - no Pará agindo da mesma forma, no mesmo período. Os ataques em São Luís e Altamira são ligados tecnicamente. As vítimas têm o mesmo perfil de idade, de sexo, de aparência, de atividade.

CC: Atividade como?
IC: Todos eles vendiam bolo ou suquinho e perambulavam pelas redondezas. São crianças pobres de periferia que sumiram da mesma maneira. Foram levadas ao mato para pegar frutas. É o jeito do Chagas de operar. Antes de ele aparecer, eu já havia concluído que os crimes nos dois estados tinham o mesmo autor.

CC: Dá para ter certeza em relação às mortes de Altamira também?
IC: Não vi os laudos dos crimes de Altamira, mas, teoricamente e de acordo com as informações disponíveis ao público, tenho certeza de que se trata do mesmo assassino. Acho difícil ter outro agindo. Nos períodos em que as crianças morreram em Altamira, o Francisco das Chagas morava lá. Ou vivia no Pará e visitava São Luís com freqüência. O Chagas não assumiria crimes por vaidade. Ele já tem culpa suficiente, matou 41 meninos.

CC: E a tese de que ele teria agido em conjunto com os integrantes da seita da Valentina de Andrade?
IC: Jamais. Serial killers que agem em grupo ou em dupla têm perfil psicológico diferente do de Chagas.

CC: Que tipo de perfil ele tem?
IC: O Chagas é um indivíduo sozinho. Apesar de casado e de ter irmãos, sempre foi solitário. Não tinha vida em grupo, não se relacionava. Como é padrão em vários serial killers, se acha melhor do que os outros. Ele guardou os crimes com muito cuidado, segredo. Tanto que nunca foi apontado como suspeito em 15 anos de ação. E só confessou porque foram encontradas provas científicas que o incriminavam. Ele não agiria em parceria.

CC: Pelo que descreve o laudo pericial, o Chagas premeditava ou não os crimes?
IC: De certa forma, ele planejava. Provavelmente fazia uma seleção de vítimas, porque não é qualquer garoto que servia. Meninos muito grandes ou muito pequenos eram dispensados. A exceção foi o Daniel, de 4 anos, parente da mulher dele. Na verdade, as vítimas simbolizam o próprio Chagas na infância. O assassino também vendia suquinho e vivia na periferia. Todos esses meninos o lembravam quem ele tinha sido. Então, ele selecionava de acordo com idade, classe social, tamanho e sexo. Agora, na hora dos ataques, o ato dele era incontrolável.

CC: E por que ele atacou o Daniel?
IC: O Daniel foi uma vítima fora do padrão, mas era um apadrinhado da família do Chagas. Pode ser que, num momento de descontrole, ele tenha abusado sexualmente do Daniel e o tenha machucado de alguma forma. Então ele seria descoberto. Pode ter matado o menino para evitar isso. Tanto que ele matou o Daniel dentro da sua própria casa, o que também não era comum. Acho que o Chagas teve um descontrole.

CC: O Chagas afirma que uma voz o compelia a atacar os meninos. Funcionava assim mesmo?
IC: A motivação do assassino em série é sempre com base no biológico, social e psicológico. Com mais ou menos 25 anos começa a vida de homicídios de um serial killer. Talvez, no momento, algo na vítima o irritasse. O tom de voz, uma atitude. O assassino em série pode ter outros antecedentes criminais, mas nesse período da vida, em geral, começa o uso de rituais e a ação fica cada vez mais violenta. Por isso é comum que as primeiras vítimas sobrevivam.

CC: Por quê?
IC: Porque ninguém acorda matando. Um sujeito com emprego, mulher e filhos não levanta uma manhã e, de repente, começa a matar. Não funciona assim. Existe uma escalada de violência e uma versatilidade criminal. Os assassinos em série manipulam desde antes, enganam, controlam. É uma vida de crime que se aperfeiçoa com a prática.

CC: O que teria levado o Chagas a matar?
IC: Não sabemos toda a verdade ainda, mas o Chagas foi uma criança abandonada por pai e mãe muito cedo. Foi entregue à avó para ser criado num lugar isolado, com quase nenhum relacionamento social. O isolamento costuma ser uma característica comum na infância e adolescência de um serial killer. A avó dele tinha traços de sadismo e tudo indica que o Chagas era espancado com freqüência. E também torturado emocionalmente. A avó mantinha um papel na parede onde anotava as atitudes que ela achava merecerem castigo. Sempre que a soma chegava a oito, vinha a surra. Imagina o que se passava na cabeça de uma criança de 5, 6 anos quando a anotação atingia quatro ou cinco itens. Imaginar que a avó iria pegá-lo pelas pernas, virá-lo de ponta-cabeça, colocar o pé no pescoço dele e surrá-lo com um cipó triplo que ele próprio era obrigado a cortar. Devia ser uma tensão enorme. Não há informações claras de que o Chagas tenha sofrido abusos sexuais, mas eles ocorreram em 82% dos casos de indivíduos que se tornaram serial killers.

CC: Em entrevista a CartaCapital e em sucessivos depoimentos à polícia, o Chagas disse que enterrava ou jogava no mar os órgãos genitais das vítimas. Era assim que acontecia?
IC: Duvido. No começo, talvez, mas não na maioria dos casos. Ele tem dificuldade em contar o que aconteceu. Não tenho certeza, mas, dentro do grupo de serial killers no qual o Chagas está inserido, é comum chegar ao canibalismo e à necrofilia. Os órgãos sexuais das vítimas também podem ser uma espécie de trófeu. Tanto que a polícia encontrou partes de ossos e roupas na casa dele.Ele poderia guardar como lembrança dos seus atos.

CC: A partir do laudo, o que é possível afirmar a respeito do perfil psicológico do Chagas?
IC: O perfil psicológico descrito no laudo é exato. O Chagas tinha certa consciência do que estava fazendo. Juridicamente ele é semi-imputável.

CC: O que isso significa?
IC: Significa que ele pode ter alguns benefícios, como redução de pena. O juiz pode condená-lo a qualquer pena e ele cumprirá, no máximo, 30 anos. Ou pode impetrar uma medida de segurança que obriga uma revisão psicológica periódica, anual. O problema da medida de segurança é que a psiquiatria forense como um todo no Brasil ainda engatinha. Existem alguns profissionais bastante competentes nesse assunto, mas esses indivíduos não são os que atendem nas instituições psiquiátricas País afora. Um serial killer engana perfeitamente, principalmente quando presos adotam comportamento exemplar. Em geral, são os presos de confiança dos diretores das instituições psiquiátricas e das penitenciárias. Parecem não oferecer nenhum perigo, mas, quando soltos, voltam a matar. E o risco, no caso, é de o Chagas obter uma avaliação de "recuperado" de algum psiquiatra forense pouco experiente nesse tipo de assassino e voltar às ruas. Mas, mesmo se cumprir 30 anos, ele estará solto com cerca de 70.

CC: Solto ele matará?
IC: Matará. O desejo sexual dele estará arrefecido, mas não acabado. E a necessidade de matar continuará viva. Não existe nenhum serial killer no mundo que parou de matar nem tratamento conhecido que o faça parar. Ao contrário, todas as terapêuticas que foram aplicadas até hoje nesse tipo de assassino fizeram com que ele matasse melhor.

CC: Como assim?
IC: Ele aprende o que você quer dele, o que você descobriu, como descobriu. Então ele aprende a esconder melhor, a manipular melhor, a controlar-se melhor. Só não aprende a matar menos.


DEBATE

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara discute a autoria dos crimes de Altamira

Preso em dezembro de 2003, o mecânico Francisco das Chagas afirma ter começado a agir em Altamira (PA) em 1989. Considerado o maior assassino em série da história do País, Chagas só parou de matar 15 anos mais tarde, após ser preso pela polícia maranhense. As confissões do assassino em série abriram uma fissura nas investigações dos crimes no Pará, atribuídos a uma suposta seita satânica comandada por Valentina de Andrade. Semanas antes da prisão de Chagas, no mais longo júri popular da história do País, quatro réus foram condenados pelas mortes e castrações. Pegaram mais de 50 anos de cadeia. Valentina acabou absolvida por falta de provas. Apesar do aparecimento e das declarações do mecânico, restam várias dúvidas sobre a verdadeira autoria dos crimes de Altamira. Há quem o considere um mitômano ou acredite que ele esteja sendo usado para tentar reverter as condenações no Pará. Há quem aposte na tese de que o matador é mais um integrante da seita satânica.

Os advogados de acusação tentam anular o júri popular que absolveu Valentina de Andrade, sob a alegação de que os jurados violaram regras de incomunicabilidade. No Maranhão, três suspeitos de cometer os assassinatos foram soltos. O vigia Robério Ruiz, condenado a 20 anos de prisão, espera um novo julgamento. O Congresso Nacional também entrou no debate. Na quinta-feira 18, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados vai reunir representantes do Ministério Público, da Justiça e especialistas que acompanharam o caso em Altamira para discutir se houve ou não erro nas investigações e nos julgamentos dos assassinatos no Pará.

Por Sérgio Liro - CARTACAPITAL
17 de novembro de 2004