:: EM BUSCA DAS CAUSAS DA VIOLÊNCIA

Autora de livros sobre crimes em série e de um volume sobre o caso Richthofen, Ilana Casoy defende que a violência criminosa tem razões biológicas e sociológicas.

(Publicada na edição nº2 / Setembro de 2006 – Revista Ciência Criminal)
Por Eduardo Morales

Dez anos atrás, Ilana Casoy tomou a decisão de se dedicar ao estudo e pesquisas de crimes violentos. Em lugar das normas e parâmetros de seu curso universitário - Administração de Empresas -, passaria a ter como balizamento a fria lógica e a crueldade que quase sempre predominam entre os indivíduos em que se especializou, os autores de assassinatos em série. Em uma década de dedicação, com um levantamento aproximado de 50 casos no Brasil, visitas a manicômios e penitenciárias, entrevistas com criminosos, Ilana se tornou uma autoridade no assunto.

Uma das medidas dessa condição é o sucesso de seus três livros, Serial Killer - Louco ou Cruel?, Serial Killers: Made in Brasil, e o mais recente, O Quinto Mandamento: Caso de Polícia (este sobre o assassinato do casal von Richthofen). Suas obras trazem uma minuciosa abordagem do perfil criminal e investigativo, descrevendo e revelando fatos e situações do universo do crime. Além de participar de investigações por todo o país, integra o Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatra do Hospital das Clínicas de USP (Nufor) e é membro consultivo da Comissão de Política Criminal e Penitenciária da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

O propósito inicial era escrever um livro sobre serial killers. Para isso, instalou-se num pequeno escritório em São Paulo, passou a pesquisar casos reais, a debater com outros estudiosos, a estabelecer contatos que garantissem sua inclusão na área da criminalística. Foi bater na porta da Academia de Polícia de São Paulo (Acadepol) e pediu para ser ouvinte num curso de perícia. Nesse percurso, ganhou a confiança da perita-chefe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), onde fez um estágio de 11 meses, participando de investigações, acompanhando peritos em locais de crimes e assistindo a necropsias.

No mesmo período, estabeleceu contato com o delegado de polícia da região de Guarulhos, para oferecer o perfil de um assassino em série que agia nas imediações. Com as poucas informações que obteve pela imprensa, disse ao delegado que os casos estavam relacionados entre si e supôs que as vítimas seriam o componente principal do criminoso. Pediu ainda que fossem averiguados casos semelhante em outras comarcas da região. De fato, os investigadores viriam a conectar mais seis crimes com os mesmos padrões, além de obter os depoimentos de pes-soas que tinham sobrevivido aos ataques. Esses dados permitiram a divulgação do retrato falado daquele que ficaria conhecido como o "Maníaco de Guarulhos".

Atualmente, Ilana trabalha na criação de um banco de dados de DNA com informações genéticas de vítimas e de criminosos. Com isso, pretende fornecer à polícia maior controle de investigação e contribuir para a elucidação de um grande número de crimes de autoria desconhecida.

Uma técnica impressionante

Prosseguindo com o estágio na perícia, a partir de outubro de 2002, Ilana viria a acompanhar, desde o início, as investigações do assassinato de Marísia e Manfred von Richthofen. O crime foi planejado pela filha do casal, Suzane, e executado pela namorado dela, Daniel, com a ajuda do irmão, Christian. Os três foram condenados a quase 40 anos por duplo homicídio triplamente qualificado: motivo torpe, emprego de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima. Ilana acredita que o crime chamou tanta atenção da sociedade porque Suzane tinha "o perfil clássico da filha que todos gostaríamos de ter". A motivação, contudo, ainda é um mistério.

Em O Quinto Mandamento: Caso de Polícia, Ilana revela as pistas que a jovem, Daniel e Christian Cravinhos deixaram na cena do crime e destaca o impressionante trabalho pericial e policial dispensados ao caso. Munida de uma autorização judicial, foi a única civil a participar da reconstituição do crime. Para mostrar toda a estratégia dos acontecimentos, conversou com aproximadamente cem envolvidos na investigação, entre advogados, policiais, peritos, amigos próximos. Tirou dúvidas com os próprios assassinos.

Ilana concedeu esta entrevista em seu escritório, na cidade de São Paulo, onde prepara um segundo livro sobre o caso Richthofen, retratando agora o ângulo da justiça e o detalhamento de todo o processo do julgamento. Na sala, os livros, muitos sobre criminologia, filosofia, psicanálise, medicina-legal e direito, disputam o espaço e as atenções com fotos de sua família e inúmeros certificados de palestras que concede pelo Brasil.

A seguir, os principais trechos da entrevista com a autora.

Ciência Criminal - Para compor o primeiro livro, você levantou uma pesquisa documental sobre os maiores assassinos mundiais. Já para o segundo, documentou duas entrevistas. Quando julgou necessários esses encontros?
Ilana Casoy - Depois de separar toda a documentação para o segundo livro, refleti muito sobre a necessidade de ouvir esses indivíduos. Nunca imaginei que pudesse estar cara a cara com um deles, já que a grande maioria se apresenta de forma dissimulada e quer contar somente o lado "bom" de suas vidas, ou exagerar seus problemas de infância, para de certa forma justificar seus atos. Naquela época, eu pensava que a pesquisa documental seria suficiente para contar uma história de crime real. Ao escrever os casos brasileiros, entre os diversos pesquisados, estava o de Marcelo Costa de Andrade (o "Vampiro de Niterói"), um caso clássico de doença mental, fazendo um contraponto com Francisco Costa Rocha (o "Chico Picadinho"), nosso Hannibal brasileiro, inteligente e culto como poucos. No decorrer da entrevista com Marcelo, pude observar como alguém aparentemente inofensivo, acometido por doença mental, pode ser capaz de atos tão cruéis. Marcelo relatou seus crimes detalhadamente, com a frieza de quem descreve a lista da feira. Seu escasso entendimento sobre o certo e o errado, sobre o humano e o monstruoso, sobre os atos que cometeu, me aturdiram profundamente. Ele não faz a menor idéia da amplitude dos crimes que cometeu. É indescritível imaginar o terror por que passaram os meninos enganados por ele e a morte dolorosa e cheia de sofrimento. Fiquei quatro dias de cama, estarrecida, mas já não me restavam dúvidas quanto à validade de uma entrevista para entender uma série de crimes. Com Francisco, foi o extremo oposto: alguém que reflete há 15 anos sobre seu próprio descontrole, tentando separar o homem do monstro. No encontro com ele, pude discutir Dostoievski, Niezstche e Sartre. Ouso dizer que a conversa com ele é, de fato, bastante agradável. Finalmente, eu e meus leitores poderíamos perceber a diferença clara entre doença mental e semi-imputabilidade. Por isso, acredito que, dificilmente, alcançaria a compreensão da mente assassina sem a possibilidade desses encontros. Hoje, com todas as técnicas de interrogatório e as centenas de outros casos estudados, pude entrevistar muitos criminosos pelo Brasil afora, como Pedro Rodrigues Filho (o "Pedrinho Matador"), Adilson do Espírito Santo (o "Monstro de Plataforma"), Francisco das Chagas (assassino confesso de 42 meninos no Maranhão e em Altamira-PA), entre diversos outros.

Como foi sua participação na investigação no caso de Francisco das Chagas?
O delegado João Carlos Amorim Diniz me procurou pelo meu site (www.serialkiller.com.br), contando que tinha um suspeito preso pelo desaparecimento de uma criança, dentre várias assassinadas naquele Estado durante mais de 15 anos. Uma de suas linhas de investigação era de que se tratava de um assassino em série, e me pediu qualquer forma de ajuda. Eu acompanhei esse caso pela imprensa e tinha a certeza de que os assassinos de Altamira e do Maranhão eram uma só pessoa. Estudei todo o material que ele me enviou, em sigilo absoluto, juntamente com uma equipe multidisciplinar. Montamos um perfil do assassino, completamente compatível com o perfil do suspeito em pauta. Planejamos estratégia de busca de provas e interrogatório, depois de observar até o sono de Francisco das Chagas. Deu certo! Três corpos foram encontrados enterrados na sala da casa dele e o interrogatório funcionou a tal ponto que Chagas confessou todos os seus crimes (42 homicídios e três tentativas) com detalhes impressionantes, de forma que não restaram dúvidas sobre a autoria. Caso encerrado, graças a Deus.

Você é uma das poucas pesquisadoras sobre as atividades desse tipo de criminosos. Existe alguma diferença entre os serial killers brasileiros e os de outros países?
Não existe essa diferença porque a mente humana não obedece a fronteiras geográficas. Nos EUA, os casos são rapidamente conectados e a polícia está mais preparada e equipada para esse trabalho. Existe uma central nacional de crimes violentos, que agrupa em detalhes o que acontece em cada cidade do país, grande ou pequena. Quando dois crimes com características similares são registrados, imediatamente são agrupados para análise de uma equipe multidisciplinar. Obviamente, os resultados das investigações intermunicipais e interestaduais são mais eficazes, dando a impressão de que existem mais crimes em série naquele país, onde estão 75% dos serial killers registrados no mundo. Ali eles existem em maior número ou são mais identificados como tal? Fico com a segunda hipótese. O que pode mudar de país para país são diferenças culturais, mais facilmente exemplificáveis nos crimes religiosos, por exemplo. O crime religioso na Bahia será diferente do crime religioso na Inglaterra.

Que reflexões você faz sobre a investigação da polícia no caso Richthofen e que avanços podem ser creditados à competência dos policiais encarregados do caso?
Aqui temos o caso que deu certo: perícia e polícia trabalhando em conjunto com competência, bandido na cadeia! Foi bom demais escrever essa história.

Você foi a única civil a acompanhar toda a reconstituição do crime junto com a equipe do DHPP. Qual a importância da reconstituição e como era o clima dentro da casa?
A reconstituição é importante para que se reconstrua passo a passo todos os detalhes da ocorrência. Aqui, os peritos são os olhos e ouvidos da Justiça, retratando literalmente os acontecimentos no local do crime para que outros envolvidos no processo possam entender a dinâmica dos fatos. Estar presente nesse trabalho foi emocionante, pois pela primeira vez eu estava frente a frente com três assassinos reais, em carne e osso, gente comum, gente como a gente. Acho que isso é o mais tocante, perceber que se tratava de jovens como tantos outros, que fizeram escolhas terrivelmente erradas pelas quais pagarão um preço extremamente alto. Cada assassino deu sua versão e, para escrever o Quinto Mandamento - Caso de Polícia, usei todas elas, apoiadas em laudos periciais e médico-legais, para reconstruir a possível verdade dos fatos.

Você acompanhou as mais de 50 horas de julgamento dentro do plenário, ao lado dos jurados, da promotoria, da defesa e do juiz. Como foi observar o depoimento de cada réu em separado e que momentos mais despertaram sua atenção?
Foi um enorme privilégio e um tremendo avanço em minha pesquisa nesse caso. No Brasil, as testemunhas são inquiridas de frente para o juiz e jurados, de costas para a platéia. Eu pude ver os rostos de cada um dos depoentes, suas expressões, suas reações, seu nervosismo. A linguagem corporal é muito importante para o entendimento da verdade. O resultado de todas essas observações vocês vão poder ler em detalhes no Quinto Mandamento - Justiça Seja Feita.

Qual a sua visão sobre a instituição do júri? Que diferenças você pode apontar entre esse e outros julgamentos que já acompanhou?
Desta vez eu pude ter uma visão completa dos trabalhos, desde a copeira e os seguranças até o magistrado. O júri ficou mais humano, com gente como a gente também nos bastidores, cuidando de cada detalhe para que os trabalhos pudessem acontecer sem problemas. Nós, aqui de fora, esquecemos que os jurados são realmente observados para que não quebrem a incomunicabilidade, mas almoçam, jantam, dormem. Quem faz a comida? Quem lava a louça? Quem arruma as camas? Quem cuida para que os réus não sejam alcançados pela imprensa ou por algum desatinado? Quem verifica as senhas para que só entrem em plenário pessoas autorizadas? Quem foi responsável pelo sorteio de senhas? O sorteio realmente aconteceu? E os funcionários do cartório do tribunal, responsáveis por toda documentação e organização necessárias no andamento dos trabalhos? Onde ficam os réus? Quem tem acesso a eles? Quais são as dúvidas e angústias dos promotores e juízes? São tantas as novidades para mim, nesse caso, que com certeza o próximo livro será bastante interessante.

Para você, que acompanha o caso há quatro anos, como foi ouvir a sentença de condenação? Como foi o comportamento deles neste momento?
Para os réus não foi uma surpresa. Logo que saiu o resultado da sala secreta, onde os defensores acompanham os trabalhos, Suzane, Daniel e Christian foram preparados por seus advogados, para que pudessem ouvir com dignidade a sentença a ser definida pelo juiz. Se choraram ou gritaram, tiveram privacidade para isso. Na hora do resultado, em plenário, estavam plácidos, conformados e com postura respeitosa. Olhavam para baixo e ficaram em silêncio absoluto. A platéia também não emitiu nenhum som. Achei a sentença justa. Como bem disse o juiz Alberto Anderson Filho, se nós que ali estávamos trabalhando quase confinados durante cinco dias não parávamos de reclamar do nosso isolamento da família e da sociedade, imagine os longos anos que terão esses indivíduos pela frente, completamente apartados da vida em sociedade. Quem nunca entrou numa penitenciária não sabe o que é viver entre os piores seres humanos. É como ter que matar um leão por dia para apenas sobreviver outras 24 horas.

Muitos profissionais da área da saúde se apressaram em fazer "diagnósticos" de Suzane, para os meios de comunicação, sem ela nunca ter sido realmente submetida a um exame. Por que isso aconteceu? Não houve de fato essa avaliação?
Fiquei abismada com o comportamento de alguns profissionais da área da saúde. Uma psiquiatra declarou que Suzane tem uma lesão no lobo frontal do cérebro, como se fosse capaz de fazer uma "teletomogafia" (tomografia pela televisão)! É indigno e leviano. A avaliação da moça não foi considerada relevante nem para a defesa nem para a acusação, mas seria imprescindível para a pesquisa.

Seu próximo livro abordará o lado jurídico do caso. Há uma revelação em primeira mão que possa fazer?
O livro ‘Justiça Seja Feita’ não será diferente do Caso de Polícia nesse aspecto: não sou jornalista e não trago "furos de reportagem". Trago histórias reais, contadas com emoção e verdade, acompanhadas tão de perto quanto possível, com muita paciência e persistência.

Há semelhanças entre o caso Richthofen e outros que você já estudou?
Todos os casos são diferentes um do outro, com nuances e particularidades. A velha frase "cada caso é um caso" continua valendo, sempre. São diferentes históricos de vida envolvidos em cada assassinato, tanto dos perpetradores quanto das vítimas. As semelhanças ficam por conta do sofrimento que geram nos sobreviventes de cada tragédia.